Secura vaginal na menopausa: o que é a síndrome geniturinária e quais tratamentos têm evidência
Ressecamento, ardor e dor na relação sexual depois da menopausa não são “coisa da idade” que precisa ser aceita. Esses sintomas têm nome, causa conhecida e tratamentos estudados. Neste artigo, a ginecologista explica o que a ciência sabe hoje incluindo o que ainda não sabe.
O que é a síndrome geniturinária da menopausa
Síndrome geniturinária da menopausa (SGM) é o nome atual para o conjunto de sintomas genitais, sexuais e urinários ligados à queda do estrogênio. O termo foi proposto em 2014 pela ISSWSH e pela North American Menopause Society, substituindo “atrofia vulvovaginal” (Prodromidou et al., 2023).
Com menos estrogênio, a mucosa da vagina e da vulva fica mais fina e menos elástica, produz menos lubrificação e muda de pH. A uretra e a bexiga também têm receptores de estrogênio, o que explica os sintomas urinários.
Quão comum é
A SGM afeta cerca de metade das mulheres depois da menopausa (Ni & Lian, 2024). Diferente das ondas de calor, que costumam diminuir com os anos, esses sintomas tendem a persistir ou piorar sem tratamento. Mesmo assim, muitas mulheres não falam deles na consulta.
Sintomas mais frequentes
- Genitais: secura, ardor, coceira, sensação de irritação.
- Sexuais: dor ou desconforto na relação (dispareunia), menos lubrificação, pequenos sangramentos após a relação.
- Urinários: urgência para urinar, ardência ao urinar, infecções urinárias de repetição.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico: conversa detalhada sobre os sintomas e exame ginecológico. Parte da avaliação é descartar outras causas com sintomas parecidos, como infecções, dermatoses vulvares (por exemplo, o líquen escleroso) e efeitos de medicamentos. Exames complementares são pedidos conforme o caso.
Tratamentos: do primeiro passo aos casos específicos
O tratamento é escolhido em conjunto, conforme a intensidade dos sintomas, o histórico de saúde e as preferências da paciente. Veja também a página de Ginecologia Funcional.
Hidratantes e lubrificantes vaginais
São a primeira etapa para sintomas leves. Hidratantes são usados de forma regular, alguns dias por semana. Lubrificantes são usados na hora da relação. Ambos aliviam, mas não revertem as alterações da mucosa.
Estrogênio vaginal em baixa dose
É o tratamento de referência para sintomas moderados a intensos. Em cremes, óvulos ou anel, age localmente com absorção mínima para o resto do corpo. Em novembro de 2025, a FDA (agência reguladora dos EUA) anunciou a retirada do alerta em tarja preta desses produtos, e a The Menopause Society reforçou que o estrogênio vaginal em baixa dose é seguro e eficaz.
Para mulheres com histórico de câncer de mama, a decisão é individual e deve envolver o oncologista.
Outras opções prescritas
Existem alternativas como a prasterona (DHEA vaginal) e o ospemifeno, de uso oral. A disponibilidade no Brasil varia e a indicação depende de avaliação médica.
Fisioterapia pélvica
Quando há dor na relação ou sintomas urinários, a fisioterapia do assoalho pélvico ajuda a reduzir tensão muscular, melhorar o controle da bexiga e recuperar a confiança na relação.
E o laser vaginal?
O laser de CO₂ fracionado foi muito divulgado como opção sem hormônio. A pergunta certa é: ele funciona melhor que um procedimento simulado (sham)? Até hoje, sete ensaios clínicos duplo-cegos testaram isso. Uma revisão de 2025 concluiu que, somados, esses estudos não sustentam o laser como tratamento eficaz da SGM. Uma metanálise de 2026 viu melhora de curto prazo na função sexual, mas menor nos estudos com sham e com certeza limitada; duração do efeito e segurança em pacientes oncológicas seguem indefinidas.
Na prática, o laser pode ser discutido em situações selecionadas, por exemplo, quando há contraindicação ou recusa ao hormônio, com expectativas realistas e após esgotar as opções de primeira linha. Saiba mais na página de Tecnologias.
Quando procurar a ginecologista
- Qualquer sangramento vaginal depois da menopausa: procure avaliação sem esperar.
- Dor na relação que faz você evitar a vida sexual.
- Infecções urinárias que se repetem.
- Ardor ou coceira que não melhoram com hidratante.
Perguntas frequentes
Secura vaginal na menopausa tem cura?
As alterações não desaparecem sozinhas, mas os sintomas são controláveis na maioria das mulheres com tratamento contínuo.
Estrogênio vaginal dá câncer?
Os sintomas costumam voltar quando o tratamento para. A duração é revista periodicamente em consulta.
Preciso usar estrogênio vaginal para sempre?
O estrogênio vaginal em baixa dose tem absorção mínima e, segundo a The Menopause Society, é seguro e eficaz para a maioria das mulheres. Situações como histórico de câncer de mama pedem decisão individual.
Laser vaginal funciona?
Os estudos mais rigorosos, comparando com procedimento simulado, ainda não mostram benefício consistente. É uma opção a discutir em casos selecionados.
Mulheres que não entraram na menopausa podem ter esses sintomas?
Sim: amamentação, alguns anticoncepcionais e tratamentos oncológicos também reduzem o estrogênio.
Referências
- 1. Prodromidou A, et al. CO₂ laser versus sham control for the management of GSM: systematic review and meta-analysis. J Pers Med. 2023;13:1694. PMC10744987
- 2. Ni Y, Lian J. Carbon dioxide laser therapy for the management of GSM: a meta-analysis of RCTs. Exp Ther Med. 2024. PubMed 38223331
- 3. Laser for genitourinary syndrome of menopause: what we know and what we need to know. Climacteric. 2025;28(4):414-422. PubMed 39968760
- 4. Fractional CO₂ laser for GSM: comparator-aware systematic review and meta-analysis. Int Urogynecol J. 2026. PubMed 42593504
- 5. The Menopause Society. Comentário sobre o anúncio da FDA sobre terapia hormonal, 14/11/2025. menopause.org
- 6. Harvard Health Publishing. FDA removes menopause hormone therapy black box warnings, 2025. health.harvard.edu
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